Por: António Ramos (Gestão de rega e implementação de projetos – Aquagri ACE), com a colaboração de Margarida Franco (Responsável pelo Departamento de Agronomia – Lusomorango SA)
A gestão de água de rega e dos nutrientes é essencial para garantir a qualidade do produto final e promover uma maior consistência nas produções.
Para se assegurar que a água de rega e os nutrientes são aplicados de forma eficiente são necessárias ferramentas que nos auxiliem a observar o que se passa no perfil do solo e na zona radicular. Através da utilização de sondas de humidade e salinidade consegue-se, em tempo real, observar se o que fornecemos no solo está a ser utilizado pelas plantas ou se aplicamos em excesso. Estas sondas, aliadas à informação das estações meteorológicas e às observações feitas no campo, ajudam a determinar com maior precisão as necessidades de rega das culturas.
As framboesas e os mirtilos são culturas que gostam de conforto hídrico, pelo que não devemos deixar que a água lhes falte. Mas se, por um lado gostam de água, por outro o seu excesso é prejudicial podendo matar as plantas por asfixia radicular. Daí a necessidade de monitorizar de forma a dar somente a quantidade de água necessária em cada fase da cultura, evitando também lixiviações resultantes de aplicações excessivas. Antes de instalar uma plantação de framboesas ou de mirtilos convém fazer uma cuidada análise ao tipo de solo e do clima com que se vai trabalhar. Solos muito pesados (argilosos), com dificuldade de drenagem e pouco arejados não são recomendados para estas culturas. Mesmo com a utilização de camalhões de melhor textura e arejamento, a existência de camadas argilosas no fundo do perfil do camalhão poderá originar, em alturas chuvosas, a ascensão capilar de água para o camalhão e a asfixia de algumas das raízes.
Framboesa
Para a framboesa, pior que a falta de água é o seu excesso. Solos encharcados provocam o apodrecimento das raízes e a sua morte. Convém estar atento ao excesso de água desde a instalação até ao final da cultura, mesmo quando as plantas estão em dormência.
Uma característica das framboesas que tem de se levar em conta quando se rega, é o facto de terem muitas raízes pastadeiras superficiais, que são muito importantes no desenvolvimento das plantas. Estas raízes são sensíveis à temperatura sendo, por vezes, necessário, especialmente no verão, regar várias vezes durante o dia simplesmente para humedecer e refrescar a zona superficial do camalhão.
Aquando da instalação é fundamental manter todo o camalhão com o mesmo nível de humidade, para o que é preferível utilizar duas fitas de rega (uma de cada lado das plantas) de forma a promover um bolbo humedecido mais largo. Nesta fase inicial, as regas devem ser feitas de forma que atinjam o nível ligeiramente abaixo da zona radicular, de forma a promover o enraizamento. Em termos de adubação esta é a fase em que se deve dar fósforo para promover o enraizamento e azoto amoniacal para promover o crescimento vegetativo.
Na floração é necessário manter os níveis de humidade constantes e na zona de conforto. Esta é a uma altura em que não podem faltar os nutrientes essenciais para a formação de reservas na planta e para a futura qualidade dos frutos.
Quando as plantas entram em produção é importante gerir a água no limite inferior da zona de conforto, garantindo que os frutos atingem o calibre desejado, mas que não fiquem moles ou percam qualidades organoléticas. Não se deve deixar a planta entrar em stress.
Na fase de produção, para uma boa síntese de açúcares deve manter-se uma adubação equilibrada.
Na fase de dormência é essencial manter os níveis de humidade para que as raízes estejam confortáveis.
Nesta fase, para garantir este conforto é necessária muito menor quantidade de água pois o consumo é reduzido. A adubação deve ser suspensa.
Mirtilo
Tal como as framboesas, os mirtilos gostam de água mas não em excesso. Também nos mirtilos o excesso de água provoca a morte das raízes. São plantas que dão preferência a solos arejados.
Nos mirtilos é recomendável a utilização de duas fitas de rega de forma a, mais facilmente, uniformizar a humidade em todo o camalhão.
Sendo as raízes dos mirtilos superficiais durante toda a vida da planta, é fundamental manter a humidade estável à superfície do camalhão. O que faz com que no verão seja, por vezes, necessário regar várias vezes ao dia.
A sensibilidade das plantas de mirtilo às variações de temperatura e de humidade na zona radicular faz com que seja essencial a incorporação de casca de pinheiro (ou equiparado) no camalhão e por cima deste, de forma a minimizar essas variações.
Na instalação, é recomendável a adição de enxofre, juntamente com a casca de pinheiro com o objetivo de promover o enraizamento e baixar o pH. Nesta fase, convém que as regas atinjam profundidades um pouco abaixo das raízes de forma a promover o enraizamento.
Os mirtilos gostam de solos ácidos (4,5 a 5,5), pouco comuns em Portugal, pelo que na maioria das plantações se deve incorporar ácido na rega (normalmente ácido fosfórico). É fundamental monitorizar o nível de pH da solução do solo para que se façam as correções necessárias com fundamento. Para tal pode utilizar-se equipamentos que absorvem a solução do solo para posterior análise em laboratório (Solu-sampler Sentek). Devido ao baixo pH do solo é muito importante controlar a aplicação dos micronutrientes porque com estes níveis de pH podem ficar muito disponíveis e originar toxicidade.
No que respeita à adubação, o mirtilo é uma planta que dá preferência ao azoto na forma amoniacal. Desde a plantação até ao fim de vida da cultura deve dar-se preferência a este tipo de adubação azotada.
Na floração e na frutificação deve-se manter a planta em conforto hídrico e adubar frequentemente de forma a garantir bom desenvolvimento dos frutos.
Quando em produção a estratégia de rega passa por manter as plantas em conforto mas menos confortáveis do que na floração e na frutificação, de forma a garantir o calibre e evitando que a fruta fique mole ou perca qualidades organoléticas. Nesta fase convém reforçar a adubação em fósforo, potássio e cálcio para garantir uma boa qualidade dos frutos.
Quando entram em dormência deve-se regar somente o necessário para manter as raízes ativas e pode parar a adubação.
Após uma poda há uma diminuição no número de folhas ativas e as plantas passarão a consumir menos, pelo que é necessário ajustar a rega e a adubação para evitar excessos.