O mirtilo

Por: Sofia Dias, Berrysmart

O mirtilo é uma espécie que está a despertar um interesse geral, desde produtores, consumidores a investigadores, face ao atrativo retorno económico e às suas propriedades nutracêuticas.
Portugal despertou para a baga azul, e pouco mais parece haver para além do pequeno mirtilo como recurso na atividade agrícola. A corrida às candidaturas ao Proder nos últimos dois anos para pedidos de apoio à Instalação de Jovens Agricultores na cultura dos mirtilos foi colossal e prevêem-se produções de 15.000 toneladas, caso todos os projetos sejam implementados e produzam nas condições normais da cultura.

Os números apresentados poderão não ser reais, face às lacunas na recolha da informação e falta tratamento de dados por parte das entidades competentes. Pelos dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), Portugal está integrado desde o ano de 2004 nos 20 maiores produtores de mirtilo a nível mundial, ocupando o 17.o lugar numa tabela liderada pelos EUA. As produções dos últimos seis anos mostram um crescimento significativo, com 2004 a apresentar 100 toneladas e 2009 com 250 toneladas.

A área de produção que rondará os 45 hectares, poderá aumentar exponencialmente face à «febre» que este fruto tem causado no setor agrícola, e atualmente não existem plantas suficientes nem em quantidade nem em qualidade para a instalação dos novos agricultores.

Na verdade, esta onda de crescimento na cultura do mirtilo fez surgir um grande número de «experts» um pouco por todo o lado e basta uma noite no Google para qualquer pessoa se dizer conhecedora da cultura e nas suas exigências de produção. Na sequência disso, veem-se na web erros cruciais em novas plantações que terão graves consequências a médio longo prazo, sendo que qualquer empresa de canalização ou renovação de interiores, assim como certas cooperativas que em nada têm a ver com os pequenos frutos, se propõem a ser grandes especialistas de algo que há dois meros anos nem sonhavam existir.

Em português não existe suporte bibliográfico fiável que dê apoio técnico aos produtores na instalação e manutenção das explorações agrícolas, por forma a auxiliar o seu caminho até ao sucesso como empresários e produtores agrícolas. Para além disso, as nossas características edafo-climáticas são diversas, o que leva necessariamente a diferentes formas de instalação, preparação e correção dos terrenos, escolha de variedades, escoamento de produto, etc. Mesmo recorrendo a bibliografia fiável e cientificamente suportada, é necessário possuir sentido crítico e conhecimento agrícola para que as escolhas sejam as mais acertadas possíveis.

A comunicação social tem vindo a apresentar jovens empresários agrícolas, provenientes das mais variadíssimas áreas e que se estão a instalar na agricultura um pouco por todo o país, dando a imagem que este é um setor onde qualquer pessoa se transformará num empresário de sucesso, sem que para isso necessite de deter conhecimentos técnicos agrícolas. Na verdade, a agricultura foi, durante anos, vista como um setor menor, com intervenientes de baixa escolaridade e baixos rendimentos, sem vista para um futuro inovador e promissor. Acontece que a agricultura requer intervenientes com conhecimentos em variadas áreas científicas como a química, física e a biologia, bem como a política, os mercados e o marketing, para que tenha um futuro sustentável e empresarial de sucesso, tomando o seu lugar na alavancagem do país nesta época de dificuldades que está a sentir em toda a Europa. Só assim os projetos e os seus promotores poderão conseguir atingir os objetivos propostos em fase de candidatura.

A organização do setor e dos seus protagonistas deve ser clara e séria, características que escasseiam na área da produção dos mirtilos em Portugal. Associações e empresas de variadas regiões surgem em busca de protagonismo sem se preocuparem com o futuro sustentável do setor e dos seus produtores vendo uma forma rápida de fazer dinheiro na elaboração de projetos mal fundamentados e irrealistas ou na comercialização de fatores de produção de duvidoso interesse à cultura. Como será a comercialização quando todas as explorações se encontrarem em ano cruzeiro? Estarão os preços do fruto aceitáveis para a viabilidade económica das explorações? Com tantas pequenas e distanciadas explorações agrícolas, conseguirão os produtores e as unidades fruteiras de expedição manter a qualidade exigida pelos mercados externos para que todos obtenham os melhores rendimentos possíveis? Serão estes mais tarde responsabilizados pelos seus clientes que tão bem acolhidos são na hora de passar os cheques e que depois são abandonados?

Estas são questões que não devem ficar no ar e é urgente que todos os intervenientes tenham consciência da sua responsabilidade e não contribuam para o insucesso e falência de muitos daqueles que se instalaram ou ainda se vão instalar.

Para a Berrysmart, empresa fundada com um dos primeiros jovens agricultores de mirtilos em Portugal e que tanto tem sido criticado pela honestidade e frontalidade com que exprime as suas ideias, é importante a transparência e apoio aos jovens que procuram na agricultura uma atividade alternativa, mas séria e responsável, para as dificuldades que se fazem sentir nos outros setores e na criação de emprego.

Esperamos que daqui a 5 anos os mirtilos sejam uma grande fatia representativa na economia agrícola de Portugal e que todos de montante a jusante da fileira possam beneficiar com isso.

Saudações mirtileiras

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